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O espaço da criação e a criação do espaço

Arte na escola, no museu, em casa

A importância do espaço de criação nas escolas e instituições

O  ateliê é um espaço privilegiado para experimentarmos nossa sensibilidade através
de materiais diversos – argila, tinta, lápis, papel, madeira, água, fogo, terra, pigmentos e, por vezes, utilizamos materiais do cotidiano – latinha, plástico, panos, roupas…

O ateliê é um lugar eleito e reconhecido pelos artistas como “o espaço da criação”; pelos educadores, seja nas escolas ou nos museus, o ateliê se apresenta como um espaço necessário para o “afinamento dos sentidos através da Arte”.

O ateliê, espaço aberto por sua natureza, é um lugar onde cultivamos o tempo, um recorte no tempo do dia a dia para certas ações que parecem não caber nas atividades pragmáticas do dia a dia: desenhar, pintar, recortar, esculpir, colar… ações que nos transportam para outros territórios dos sentidos, da percepção e do conhecimento.

É um lugar onde “coisas” singulares acontecem, onde desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, objetos, instalações, intervenções, livrinhos, cenários…, enfim, “coisas” são construídas e não têm uma função de uso imediata e, no entanto, nos acordam para outros espaços e mundos que nos habitam, que vivem dentro de nós e são materializadas em “formas” que constituem uma linguagem expressiva, poética, estética, formas que passam a existir fora de nós e para o mundo! E nos surpreendemos por esse fazer “aparentemente inútil”, acessando nossa sensibilidade, acordando um mundo grávido de sentidos, de tudo aquilo que parece ser impossível e, no entanto, fazemos…

No ateliê – o espaço da criação – passamos certo tempo realizando “coisas”, por vezes estranhas a nós mesmos. Esse lugar, seja nas escolas, museus, até em casa, congrega uma qualidade de tempo e espaço singulares, nos convidam para o território infindável da arte. A importância desses espaços dentro das escolas e instituições, bem como a importância de uma contínua formação de educadores, é fundante para facilitar, provocar e convocar o acesso à educação dos sentidos pelos sentidos: maneiras de
inteligibilizar nossa sensibilidade e sensibilizar nossa inteligência.

No ateliê são as linguagens expressivas e criativas que imperam e não as respostas prontas; não são as linguagens formatadas ou sabidas que circulam como veículo de expressão, comunicação e informação Trata-se de explorar, através de materiais – comuns e incomuns –, as formas que ainda não conhecemos, as técnicas que ainda não dominamos, as ideias que ainda não sabemos. E eis o grande mistério: são as perguntas, as dúvidas, os acasos, as brincadeiras e as estranhezas que nos movimentam neste espaço tão particular – o espaço da criação – seja para as crianças, os adolescentes, os adultos dispostos a passar pela experiência da arte.

E esse tipo de fazer singular que acontece nos ateliês, através das extensões de nosso corpo – as mãos, as ideias, os pensamentos, a imaginação, a voz, o olhar – parecem guiados, num primeiro momento, pelo simples prazer de fazer, não objetivando uma funcionalidade e resposta imediatas; num segundo momento, esse  fazer, que tem uma qualidade distinta de outras atividades, parece também  informar as sensibilidades e conquistar inteligências e conhecimentos.

Poderíamos apreender que o ateliê é um recorte no tempo e no espaço do cotidiano, independente de onde estiver localizado fisicamente, oferecendo a possibilidade de experimentarmos o ato da criação. A vivência das linguagens expressivas compreende o exercício do sensível e do inteligível conjugados e o nosso corpo é o instrumento fundamental para que as linguagens expressivas, criativas, poéticas, musical, corporal, visual, verbal conquistem uma forma no mundo.

A escola é compreendida como o lugar aonde a criança vai todos os dias para aprender, adquirir, obter, articular e produzir informações, porta-voz sociocultural de um modo de aquisição de conhecimento. Quando a escola dispõe de um espaço e de um tempo para o ensino de arte, sem dúvida alguma, esse fato, em si, já nos coloca diante de uma postura educacional totalmente diferente da postura de uma escola que não comporta o ensino de arte; justamente por considerar a arte como uma disciplina que proporciona um sistema de aprendizagem através do cultivo dos sentidos e da sensibilidade.

Quando se pensa no ensino da arte, representado pela existência de um espaço de ateliê, geralmente um espaço diferente da sala de aula (e mesmo quando se utiliza a própria sala de aula para aula de arte, por vezes, a configuração da sala muda para atender às especificidades desse tipo de atividade, alterando seu significado simbólico e sua forma de funcionamento), o “espaço da criação” é visto como um lugar e um momento onde se faz um monte de coisas com as mãos.
Subliminarmente, desenvolve- se uma noção errônea de que, nestas atividades, se encerra uma espécie de liberação de energias ou de habilitação da competência neuro-motora ou até quando se reporta a uma mera questão de arranjos de agenda escolar. Assim, é essencial recuperarmos a conexão substantiva entre os sentidos e a mente, a conjugação essencial entre a sensibilidade e a inteligibilidade justamente para que o ensino de arte não se desligue do ato cognitivo, para que o ato de aquisição de conhecimento não esteja ausente quando da nossa atuação corporal sobre os materiais.

A hora da aula de arte nas escolas é o momento eleito para a criança experimentar, brincar, construir, jogar, inventar, experimentar, criar: espécie de contrato subliminar
entre o educador e as crianças anunciando que agora é a hora da invenção! Por outro lado, corremos o risco de institucionalizar e burocratizar o lugar e o momento do próprio jogo da criação. Aqui reside um impasse entre a necessidade da existência de um tempo e de um espaço dentro das escolas para o ensino de arte, porém a própria arte, por sua natureza, parece querer quebrar estas regras e nos dizer que o espaço da criação pode residir em qualquer tempo e lugar. O conceito de ateliê, então, deveria ser revisitado.

A aula de arte é, sem dúvida, o lugar e o momento em que podemos viver experiências que nascem do contato sensível com os materiais, além da possibilidade de articular estes materiais para construir “coisas”, por vezes inclassificáveis. E será a partir desta conquista de “forma” que virá à tona a representação simbólica através das várias manifestações da linguagem visual (desenho, pintura, escultura, cerâmica, gravura, fotografia, marcenaria, vídeo, instalação, performance e outros). A aula de arte, de fato, funciona como um recorte em nosso cotidiano: recorte simbólico por um lado e, por outro lado, recorte absolutamente concreto proporcionando uma qualidade diferenciada da nossa percepção habitual.

Talvez possamos estender o espaço da criação para fora dos muros do ateliê, da escola, dos museus para também se instalar na própria vida e assim acordarmos os ingredientes essenciais do jogo da criação: desejo, intenção, observação, memória, imaginação, vontade, disponibilidade, curiosidade, disponibilidade, flexibilidade.

Existe uma necessidade urgente de reinventarmos um espaço e um tempo no cotidiano para que esta experiência – de criação – nos pertença em todos os momentos de nossas vidas, de maneira plena. O gosto pelo jogo da criação estabelece vínculos profundos entre o adulto e a criança, entre o educador e o educando, entre os sujeitos que se apropriam de suas identidades e alteridades, sempre, em qualquer lugar, e em qualquer espaço.

Disponível em Revista Digital Emília: http://www.revistaemilia.com.br/imprime.php?id=21